quarta-feira, 13 de abril de 2016

Caminhei...

...voltei ao jardim como de costume, de manhã, bem cedo. Era um hábito acordar cedo e regar as que ainda estavam lá. Enchia o regador, não com muito, com pouco, ao que servia já era suficiente. Devagar, de modo não ligeiro, regando uma a uma, sem pressa, sem receio, alimentando-as não de tudo, mas do que precisavam, de vida, de éter.
Uma a uma olhavam-me, curiosas, estranhando minha presença, indagando a constante ausência. Dei-lhes o que podia, não era muito, mas era o que tinha naquele momento, dei-lhes de afeto. Era suficiente, o bastante.
         Ao fundo, a maçã, outrora dada aos pequenos, que ali vinham e que tão pouco exigiam. Retribuía-lhes a visita, e agraciava-lhes com tão pequena oferta. Viam, comiam, e tão breve retornavam. Aquele jardim era deles, e eles ao jardim serviam.

Penso, logo não me esqueço...


... quando pensei em Lobato, imaginei inúmeros seres, em ambientes, em lugares, em espaços, a falar coisas diferentes, distintas, a falar o que eu nem compreendia. E todos eles falavam em vozes, que entre eles todos entendiam, havia conexão. De modo que comunicar é transferir aquilo que se tem àquele que espera algo, espera uma completude, penso e recomeço.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Padilha


        No balanço de um andar sensual, que vem a passos lentos, embalado por movimentos, simetricamente calculados, de quadris largos. Por onde passa encanta, encanta tudo, encanta a todos. No olhar a sedução, hipnotiza os olhos dos passantes, dos que aqui estão e também dos que virão.
         Na mão esquerda um longo cigarro, que de trago em trago, enche o ar de uma fumaça levemente cinzenta e adocicada. Na outra mão, um cálice de vinho tinto, bebe muito, mas não perde a lucidez nunca, sempre alerta e preparada para a batalha.
           A gargalhada pode ser ouvida ao longe, a uns assusta e a outros encanta. Liberta de vícios e a outros ensina. Rainha do povo da rua. Traz a magia no olhar, e sua saia, freneticamente, a rodar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Ceifador

Atacou-o com dois golpes rápidos, atingindo-o sob o pescoço; caiu levemente ao chão, o sangue escorreu sobre toda a vegetação rasteira, em instantes via-se um lençol vermelho vivo sob todo o chão. 
         Olhou-o nos olhos, seus olhos ainda agonizavam, silenciosamente – em um misto de medo e ódio – feras não lidam bem com derrotas. Tampouco, covarde – derrota covarde. Havia desferido três golpes em seu pescoço. O primeiro para ceifar, o segundo para derrubar, o terceiro para garantir a morte, quando um só bastava, os outros eram arrogância. Guerreiros também são covardes. As presas, muitas vezes, lhe são um fantasma obsoleto.
        O primeiro olhar lhe causou ódio, o posterior trouxe-lhe alívio, o último um tremendo pesar. A besta não o tinha atacado. Ele sim, a emboscou-a, e em atitude Judas ceifou-a, covardemente.
        O pai o tinha dito: “não matarás sem que o fim seja o alimento”. O arrependimento tardio já não o consola. Um demônio pessoal ao chão, que não há de voltar, e, por fim, uma lição.