terça-feira, 1 de março de 2011

Papa


        Ancião que anda entre os tempos, trás as boas-novas das divindades; o dever é repassá-las aos seres vivos. Forjado, tocado, tem o consentimento dos deuses, não se submete às vaidades humanas.
Tem a fórmula mágica que cura as feridas, o intercessor. Seu saber acalma, liberta e sustenta corpos e almas. Onde passa, ajoelham-se perante, para serem abençoados; é o mensageiro do infinito. Coordena as relações entre os indivíduos, mentor espiritual, representante dos cosmos.  Com sua presença os reles humanos entendem que não são imortais: que são dotados pelas falhas, que prestam contas diariamente à justiça celestial.
Não há necessidade de sentimentos miseráveis ao reverenciar a sua imagem; reverenciá-lo é sinal de obediência e coração puro.  Tal ato é uma lição de vida: "- Respeitar ao próximo é respeitar a si próprio."

Imperador


        Os fatos reais, a força, a resistência e o agir. Seu mando é uma força que não se move pelo tempo. É mais do que uma necessidade em fazer as regras e exercer seu império diante da realidade da matéria, palpável, que guia o mundo. Foi nomeado entre milhões, para defender as diretrizes universais impostas; desvendar e fazer acontecer a multiplicação das riquezas que foram conseguidas antes de sua era. Da mesma forma, se empenha em defender, dar continuidade, concretizar, até mesmo expandir, o reino e o império dos necessitados. Impera sobre o universo e sobre os clãs. Os poderes que lhe deram, garantem aos tocados vida eterna.
         A força que move a terra, um perfil de grande poderio intrínseco por razões e conclusões; um transformador, responsável pela arte de produzir e também de proteger. O seu conhecimento se faz grande, comparado aos demais. Tem o saber dinâmico e o modo correto de operar os fatos, como quem reina nos seus devidos territórios: personifica a vontade das massas e também o saber inquestionável.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Imperatriz

        Guardiã do código da experiência. O puro afeto, a que concede o espírito da existência, a que desperta, a que faz as coisas em volta caminharem. Concretização da inteligência, a inteligência que se esconde por detrás do poder, o instinto da selvageria, tão fecundo quanto fértil.
Seu dom é o controle das emoções: que a torna capaz de explorar as riquezas do coração, tão bem como as do espírito. Porém, também impregna a terra com seu cunho maternal: planta e brota o grão da vida para que desabroche em abundância. Representa os fluídos menstruais com excelência.
        Mas seu maior poder se vale dos afetos, daquilo que se aproxima e que também se afasta; daquilo que está na origem de todo ato realizado. Sua vigor é meramente sentimental. Sua assimilação é guiada pelo instinto, o que a faz espontânea. É de veras, mas também e a que pensa com a alma.  Em uma mão, ostenta o domínio atemporal que mantém sobre a matéria de tudo que existe, seja no mundo físico ou espiritual.  Tem a força, a coragem, o fogo sagrado da águia imperial, cravado no escudo que ostenta na outra mão. 

Papisa


        O ato de viver pode até assemelhar-se ao ato de jogar, mas ‘o jogar’ tem suas conseqüências, prediz ela. Para ensinar as regras, trás o livro dos mistérios da vida nas mãos. Tal livro guarda todo o conhecimento, que um dia foi repassado, reescrito, guardado; e que está sempre aberto às mentes curiosas, mesmo que ainda haja o medo em penetrá-lo.
O saber que esse livro trás não é o saber dos homens.  É minuciosa e escolhe o que bem aprende. Almeja as cordas que traçam a vida, os elos primitivos entre os seres; os sigilos da criação, que fazem o grão brotar sobre a terra.
Taciturna, sensitiva, senhora da sabedoria, reserva-se a manter o que já foi criado e prover por aquilo que ainda virá. Mergulhada em um eterno ciclo de transitoriedade, faz da mente e da psique a fonte do perpetuo saber.
Donzela da arte dos afazeres. Toca a vida, os seres, a matéria. Uma maga, ceifeira das almas. Propõe às criaturas o nascimento ou renascimento - o descortinamento do véu, a profecia.

Mago


         Joga, ilude, cria, pinta, poetiza. Vem e mostra, insistindo, o quão lúdica pode parecer a vida, e diz que a realidade é meramente temporal e existencial. E o tempo, aos seus olhos, é um simples jogar, um jogar no universo, é o brincar nas galáxias. Transforma o real numa ilusão: o real é uma projeção da mente que não deve ser considerada. Faz cair as máscaras, para livrar a vontade vaidosa. Abre a mente para a visão o ciclo da vida pelos olhos da criança; e, com os mesmos olhos, ser capaz de sentir o intervalo entre: o transformar e o reestruturar o mundo semelhante à nossa imaginação.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sentindo o ínfimo

Acordou. O ato de acordar era tudo o que tinha naquele momento, apenas deixou que o simples exercício de abrir os olhos a consumisse. Não queria estar acordada, nem queria fazer parte daquele mundo disforme, não mais. Aos poucos começou a perceber que os raios do sol entrevam e vagavam sem rumo pelo interior de seu quarto. O que era o sol? Pegou-se pensando a respeito por míseros minutos.  Naquele momento nem se dava conta de quem era, imagine só se saberia o que ele era?  Mera perda de tempo!
Aos poucos mexia-se, sentido seu corpo levemente despertando, despertando de algo que nem sabia o que era. Não se lembrava de ter dormido; e agora estava acordando e dando início ao que parecia ser um novo dia. Dias? Eles passaram e ela nem ao menos os sentiu, não sabia que gosto tinha. Apenas os viveu como os vive uma pedra qualquer. Tudo naquele momento não fazia sentido, como não tinha feito nos últimos anos.
Olhou no relógio de parede e já passava das dez. E o que importava? O tempo nunca guiou sua alma, apenas aprisionou sua sensatez. Começou a sentir os dedos do pé formigarem; dizem que quando isso ocorre é por manter-se tempo demais em uma mesma posição. Isso lhe fez pensar que não se dera conta de quanto tempo permaneceu ali naquela posição. Não tinha lembrança nem de quando ali se deitou; então quem dirá o tempo que permaneceu?
Ao despertar, sentia falta de estar dormindo, e quando estava dormindo necessitava acordar. Essa sensação tão vaga muitas vezes lhe vinha em sonhos; não a compreendia, apenas tinha a certeza de que a sentia e como sentia, não sabia. Não era algo que algum dia importou-se.

Mexeu os pés e, instantaneamente, percebeu que eles ainda respondiam aos seus comandos. Teve vontade de levá-los ao chão; vontade essa que logo se consumou. Sentiu o chão frio tocar-lhe e essa sensação por mais vazia que pareça foi boa. Parece que o frio lancinante que veio de baixo tocou fundo o gélido de sua alma e os dois conduziram uma dançae m seu interior. Agora me sentia-se completa.
Postou-se de pé e descalça permaneceu. Precisava suportar esse frio que me lhe fazia tão bem, queria senti-lo de perto. Não queria deixá-lo ir embora. Não podia! Nunca tinha sentindo sentimento algum por nada e agora se sentia atraída por ele. Teve vontade de deitar-se sobre o chão. E fez. Debruçada sobre ele, abraçou-o firme. Usou toda sua força, não queria desgrudar dali nunca mais. Aquele universo particular era seu e só seu. Não deixaria que ninguém e nem algo lhe tirasse. Ali permaneceu por segundos... por minutos... ou, talvez, por horas. Entrou-lhe, conheceu seu lado frio; e desse, ela gostava. Era esse seu lado que sempre procurava e estava satisfeita em tê-lo encontrado. Agora sentia os icebergs que haviam se formado em sua alma há tempos.Sentia-os como agulhas gélidas lhe martirizando; gostava dessa sensação, gostava do tormento causado. Sentia que sua face esfriava, congelando-se em contado com o chão. E isso a ligava ao solo, parecia que estava conectada a terra. Podia ouvir os barulhos, ou seria batimentos? Era um ventre? Acreditava ter atingido o ventre da terra. O que tem lá? Já ouvi dizer que é de lá que brota a vida. Vida? Sobre isso não podia mais falar, porque não mais a compreendia.
        

sábado, 8 de janeiro de 2011

A que canta em todas as coisas

A primeira a está sobre a terra:
foi quem a concebeu.
Senhora da lua,
senhora da vida,
senhora dos grãos;
trás fertilidade a terra
e propicia as boas colheitas.
Tudo têm parte de sua matéria;
canta em todas as coisas.
Sempre ao redor,
está dentro de tudo,
está sobre os pés dos que pisam;
sustenta o universo.
O sangue que corre em todas as veias,
veio do emaranhado de águas vermelhas
onde reina como a Senhora do Lago.
Virgem
que guarda os segredos de viver como donzela,
e também a mãe: de seu útero que a vida surge e para lá que retorna.
Ceifeira, senhora da morte;
conduz para o portal do ciclo de vida e morte.
Carrega o ofício quem detém o controle sobre a existência:
doa a vida, mas também a tem.