quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Memórias de uma dama mal-comportada


I


Debruçou-se sobre a parede da varanda, com os cotovelos frágeis, e mirou uma ou duas pessoas que passavam em direção a linha do trem. Como que por impulso, deu um grito bem alto, de modo que quase acordou boa parte dos moradores do cortiço.
─ Ei! Já vai, heim!? Pensa que não sei para está indo, Maria-rapousa? ─ deu uma gargalhada alta ─ Que Deus tenha piedade do teu bendito marido, que sai de casa de madrugada e ainda tem que aguentar os passos tortos da esposa indecente!
─ Ah, vá! ─ gritou a mulher do fundo da rua.
─ Respeite-me sujeita indecente, sou uma dama, sabia? ─ Só moro nesse lugar por diversão, imagina se precisaria disso aqui para viver! ─ Virou as costas e sentou-se na cadeira de balanço no quanto da varanda e continuou a olhar o movimento da rua.
 ─ Ei, seu Bernardo! Já vai trabalhar? E nem cumprimenta a vizinha-primeira-dama? ─ Gritou mais uma vez, dessa vez para um senhor barrigudo, que atravessava a rua com pressa.
O senhor acenou educadamente.
─ Ei, Bicha metida! Passa e finge que nem conhece os vizinhos? Até parece que todo mundo dessa rua não sabe que tu lava o cabelo com sabão de côco e só come pastel frito no óleo sujo com caldo de cana, na rodoviária.
A mulher mostrou-lhe o dedo do meio e seguiu apressada.
─ Sem-educação! Mas esperar o que de “gentinha” como você? ─ resmungou enquanto conferiu o cordão de ouro no pescoço.
  ─ Lá vai, ó, Carlitos! ─ apontou o dedo para o final da rua, indicando uma moça magra ─ dizem que tem três amantes e já abortou cinco, santo-Deus! ─ gesticulava ao gato de estimação, que estava sentado ao seu lado, como se ele conseguisse entender tudo o que dizia.
─ Lá vem seu Valdemar! ─ sorriu alto e acenou ─ esse sim é homem digno, cuida da esposa e dos filhos, e nem de longe se parece com os trastes dessa pensão.
 ─ Já vai pegar a maria-fumaça, seu Valdemar? ─ gritou
O senhor acenou, positivamente, com o polegar.
Começou a cantarolar uma música de letra curta e satírica.
“ Quando era jovem eu não abria… não abria… não abria... mão de uma doze de cachaça.  Agora abro... abro... abro… a porta de casa para o vento entrar.”
  ─ Lá vem a beata insuportável! ─ fez uma cara azeda ─ Diz ela que todo mundo irá para o inferno. Inferno é ter que olhar para cara dela a esta hora da matina!
A senhora,  que usava um crucifixo no pescoço, passou com uma bíblia aberta e rezando algo que não se ouvia.
   ─ Vá, vá! E o que o diabo a carregue! ─ cuspiu do alto da varanda.
  ─ Lá vem Jorgito, o rapaz de meus olhos! ─ riu abolhada ─ Ei, Jorgito, a que devo o ar da sua graça?
─ Imagina, eu quem fico feliz em encontrar uma dama como a senhora, todos os dias antes de sair ao trabalho.
─ Nem venha com muita conversa, não. Sei bem que queres o meu ouro. Num dô... num dô. Ninguém toca na herança do falecido!
─ Mas o que é isso, senhora? ─ espantou-se o jovem ─ Eu? O que haveria de querer com teus dotes?
─ Conheço esses tipões do teu partido, Jorgito! Passa a cantada na velha, chama de meu amor, ilude, faz cafuné, a velha dorme e vai embora com tudo que tem direito!
O jovem deu um gargalhada gostosa.
─ Mas madame Júlia, tenho cara desses tipões a que se refere?
─ Não sei não, heim, Jorgito! Não sei não! Esse teu bigode nunca me enganou, e esse jeito de malandro-abala-coreto me diz que devo deixar sempre um pé atrás.
O jovem gargalhou mais uma vez.
─ Hoje a senhora está é bonita, não está?
─ Sempre, querido! Uma dama como eu não se dá ao desfrute, estou sempre produzida para os meus admiradores. Abalo o coração dos senhores casados e infernizo o sono das senhoras dona-de -casa. Ora, pois.
─ Está certa! Uma rainha nunca perde a majestade, confere? ─ tirou o chapéu da cabeça e reverenciou-a ─ agora deixe-me ir, madame, se não perderei a maria-fumaça.
─ Vá com Deus, meu filho! ─ acenou.
Enquanto o jovem ia ao rumo de sua condução.
Dona Júlia, vulgo madame, madama, baronesa do café , atriz de teatro de revista, vedete e muitos outros ditos, ficou ali tomando um café preto e tragando seu velho e longo cigarro.


terça-feira, 11 de junho de 2013

Para se ver



         Adentrou o coche, ligeira. Ainda na porta, adiantou-se ao cocheiro.
 ─ Irá passar em frente ao Shopping?
─ Passarei sim, jovem. Entre ─ Apressou-se o motorista.
Correu os olhos sobre os passageiros já sentados, localizou uma cadeira vazia no início e sentou-se. Enquanto passeava os olhos pelas folhas do seu livro de mão, a passageira do assento da frente perturbou-o.
 ─ Olha lá, olha lá! ─ resmungava inquieta ─ brincadeira, viu... brincadeira!
─ Oi? ─ disse o jovem, entre os dentes, e coçou a cabeça.
─ Ali, filho, olha lá! ─ apontou rapidamente para a placa ao canto da pista ─ viu? Estão trocando as placas antigas por placas novas, com a respectiva tradução para o inglês, tudo por conta dos jogos!
 ─ É verdade, nem tinha visto ainda.
 ─ Brincadeira, viu....brincadeira um negócio desse ─ insistia ela ─ um país desse com tanta pobreza, com tanta desigualdade, com tantas mazelas, e tantas outras necessidades... investindo em plaquinha traduzida, só para agradar gringo.
 ─ Aham, a senhora tem razão.
 ─ Sabe o que me revolta? O descaso com os pilares fundamentais da sociedade: saúde, educação e segurança. ─ dizia com o dedo erguido ao céu ─ não repassam a verba necessária para esses segmentos, e em virtude disso, os mesmos não funcionam direito. E para onde está indo esse dinheiro? Ora bolas, para plaquinhas para gringo ver. Ah, vá a ....!
 O jovem confirmava, balançando a cabeça. Enquanto a passageira, ao seu lado, debochava com risinhos abafados.
 ─ Está vendo isso aqui? ─ abriu a sacola que levava sobre a perna e retirou um pote de barro, redondo. ─ é marmita! Sabe de onde vem?
 ─ Não, senhora.
─ Peguei em um manifesto de rua, de onde acabei de vir. Após o ato, os organizadores distribuíram aos participantes; algumas pessoas não quiseram e me deram. Vai ser a minha ceia e de meus meninos; consegui pegar três, olha! ─ abriu um e mostrou o que tinha dentro ─ É comida de primeira, já estou até com fome só de olhar. ─ deu um sorriso triste.
O rapaz a olhou nos olhos, e percebeu em seu olhar todo o histórico de sofrimento pelo qual aquela jovem senhora havia passado nos últimos meses. As marcas de expressão em seu rosto registravam cada dia de trabalho duro enfrentado, cada desaforo engolido, cada palavra omitida em necessidade.
 ─ Sou estudada, rapaz. Não sou pedinte, não. ─ adiantou-se em corrigir qualquer juízo de falso valor que pudesse ter sido criado pelo jovem ─ estou levando essas poções de comidas para casa, porque o que ganho não está dando para sustentar a mim e aos meus garotos. Mas tenho estudo, sou enfermeira da Santa Casa!
─ É uma pena, não? ─ insinuou o rapaz.
─ O quê? ─ quis saber ela.
─ Que a senhora, com todo esse estudo, tenha que passar por tudo isso.
─ É filho, mas vá se acostumando, os profissionais mais importantes do país são os que mais apanham do Estado. É médico, enfermeiro, professor...
 ─ Serei professor.
─ Lamento muito, jovem.
 ─ O quê?
─ Que tenha que passar por isso. Não desejo o que passo a ninguém.
 O jovem não respondeu. Calou-se.
 ─ Trabalho três turnos para poder sobreviver, espero que não precise fazer o mesmo.
 ─ Espero que isso um dia mude.
─ Mudará sim, rapaz. O dia em que aprendermos a pensar.
 Despediu-se e desceu do coche levando consigo sua sacola cheia de marmitas e de esperança.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Meus bebês


      
            
Adentrou o coche, ligeiro. Ainda na porta, adiantou-se ao cocheiro.
 ─ Irá passar em frente ao Castelo Real?
─ Passarei sim, jovem. Entre ─ Apresou-o o cocheiro.
Correu os olhos sobre os passageiros já sentados, localizou uma cadeira vazia no início e sentou-se. Enquanto passeava os olhos pelas folhas do seu livro de mão, a passageira do assento da frente perturbou-o.
 ─ Olha lá, olha lá! ─ resmungava inquieta ─ brincadeira, viu... brincadeira!
─ Oi? ─ disse o jovem, entre os dentes, e coçou a cabeça.
─ Ali, filho, olha lá! ─ apontou rapidamente para a placa ao quanto da estrada ─ viu? Estão trocando as placas antigas por placas novas, com a respectiva tradução para o inglês, tudo por conta dos jogos!
 ─ É verdade, nem tinha visto ainda.
 ─ Brincadeira, viu....brincadeira um negócio desse ─ insistia ela ─ um país desse com tanta pobreza, com tanta desigualdade, com tantas mazelas, e tantas outras necessidades... investindo em plaquinha traduzida, só para agradar gringo.
 ─ Aham, a senhora tem razão.
 ─ Sabe o que me revolta? O descaso com os pilares fundamentais da sociedade: saúde, educação e segurança. ─ dizia com o dedo erguido ao céu ─ não repassam a verba necessária para esses segmentos, e em virtude disso, os mesmos não funcionam direito. E para onde está indo esse dinheiro? Ora bolas, para plaquinhas para gringo ver. Ah, vá a ....!
 O jovem confirmava, balançando a cabeça. Enquanto a passageira, ao seu lado, debochava com risinhos abafados.
 ─ Está vendo isso aqui? ─ abriu a sacola que levava sobre a perna e retirou um pote de barro, redondo. ─ é marmita! Sabe de onde vem?
 ─ Não, senhora.
─ Peguei em um manifesto de rua, de onde acabei de vir. Após o ato, os organizadores distribuíram aos participantes; algumas pessoas não quiseram e me deram. Vai ser a minha ceia e de meus meninos; consegui pegar três, olha! ─ abriu um e mostrou o que tinha dentro ─ É comida de primeira, já estou até com fome só de olhar. ─ deu um sorriso triste.
O rapaz a olhou nos olhos, e percebeu em seu olhar todo o histórico de sofrimento pelo qual aquela jovem senhora havia passado nos últimos meses. As marcas de expressão em seu rosto registravam cada dia de trabalho duro enfrentado, cada desaforo engolido, cada palavra omitida em necessidade.
 ─ Sou estudada, rapaz. Não sou pedinte, não. ─ adiantou-se em corrigir qualquer juízo de falso valor que pudesse ter sido criado pelo jovem ─ estou levando essas poções de comidas para casa, porque o que ganho não está dando para sustentar a mim e aos meus garotos. Mas tenho estudo, sou enfermeira da Santa Casa!
─ É uma pena, não? ─ insinuou o rapaz.
─ O quê? ─ quis saber ela.
─ Que a senhora, com todo esse estudo, tenha que passar por tudo isso.
─ É filho, mas vá se acostumando, os profissionais mais importantes do país são os que mais apanham do Estado. É médico, enfermeiro, professor...
 ─ Serei professor.
─ Lamento muito, jovem.
 ─ O quê?
─ Que tenha que passar por isso. Não desejo o que passo a ninguém.
 O jovem não respondeu. Calou-se.
 ─ Trabalho três turnos para poder sobreviver, espero que não precise fazer o mesmo.
 ─ Espero que isso um dia mude.
─ Mudará sim, rapaz. O dia em que aprendermos a pensar.
 Despediu-se e desceu do coche levando consigo sua sacola cheia de marmitas e de esperança.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Quero ser bonita



Quero ser bonita, dizia. Arrastou uma das cadeiras do quarto para perto do gigante espelho de cobre, no quarto da mãe. Sobre a cama já tinha selecionado os melhores pós, perfumes, joias, e tudo o mais que achava que lhe daria uma aparência mais feminina e que lhe deixasse o mais próximo da imagem de suas duas irmãs mais velhas e de sua mãe. Correu ao guarda-roupa e retirou um vestido cor de açafrão, o mais decotado dos; se vestiria algo de mulher adulta, teria que ser o mais ousado possível. Antes de se vestir, despiu a roupa e deixou-as de lado.  De frente ao espelho observou-se e mirou os peitos, passou a mão sobre eles. Beliscou as pontinhas, será que algum dia irá crescer? Pensou. Nesse momento o que mais queria era vê-los grandes tal com os de sua irmã mais velha, correu à gaveta do roupeiro e retirou um dos corsets da mãe e alguns pares de meias. Com dificuldade ajustou-o  no tronco e subiu até a região do busto. Olhou melhor e achou que lhe faltava algo, pegou as meias e fez duas trouxinhas redondas e as encaixou dentro das cavidades dos seios. Pronto, agora tenho peitos! Riu.
Com tamanha dificuldade vestiu o vestido da mãe sobre o corpo magro, ficou meio largo, e não se agradou. Foi até uma das gavetas da cômoda, encontrou um laço de fita e ajustou sobre a cintura. Ficou estranho, calculou. E não queria vestir algo que não lhe caísse bem, tirou-o  então, e deixou de lado. Voltou ao roupeiro e tirou dessa vez um vestido de festa, colocou sobre o corpo, e observou que estava grande demais. Então teve uma ideia genial. Sobre a penteadeira da mãe apanhou uma tesoura grande, dessas de costura; deitou o vestido sobre a cama e mediu atrapalhadamente um palmo, e pronto, cortou sem dó. Ótimo, agora está perfeito, constatou. Pôs sobre o corpo com dificuldade, travou uma guerra para abotoar os botões traseiros. Mulher adulta sofre, praguejava mentalmente. Pronto, estou vestida.
Olhou para os pés, pequeninos, e sem vestígio de qualquer marca feminina. Queria ousar, mulher não usa sapato baixo, sapato baixo é para homens, repetiu alto várias vezes. Em uma das arcas, apanhou um desses sapatos de salto bem grande. Calçou, e percebeu que estava grande em seus pés, mesmo assim com esforço deu um jeito de prender as amarras firme no calcanhar, não podia cair de jeito nenhum, sabia bem disso. Para testar, caminhou algumas vezes diante do espelho, treinou por alguns minutos seguidos, sem parar. Riu de si, que de tão jovem desconhecia o desequilíbrio trazido pelos calçados altos. Tropeçava, mas nem ligava, sabia que logo estaria andando como as mulheres elegantes que via nos salões de festa. Parou e sentou sobre a cama, olhou para todos aqueles apetrechos usados para maquilar o rosto, pensava em como usá-los. Sabia que a mãe e as irmãs os usavam, mas como, não tinha nenhuma idéia; apenas tinha a certeza que elas ficavam deslumbrantes e era assim que queria ficar.
Começou pelo batom, lembrou que sabia passar muito bem. De frente para o espelho, abriu o pote pequeno, passou o dedo indicador na mistura, e começou a modelar a boca com a cera grudenta vermelha, começou pelo lábio inferior e seguiu para o superior. Em seguida limpou os cantos com o outro dedo, esfregou os lábios, e claro, fez biquinho, tal como aprendera vendo as irmãs se maquilando. Mirou um dos frascos claros com uma pasta esbranquiçada, já viu a mãe passando isso pelo rosto. Abriu o pote e deu a primeira dedada e levou a pasta às bochechas. Começou pela esquerda, esfregando devagar, jamais perdendo a delicadeza, ouvira certa vez que a delicadeza é a virtude das mulheres, e é o que queria ser naquele momento – mulher de verdade. Percebeu que o rosto embranqueceu, achou estranho, mas sabia que todas as  mulheres da Corte usavam isso, e não deixaria de usar também. Agora é a vez dos olhos, disse baixinho. Fechou a pálpebra esquerda. Com uma das tinturas que escolheu ─ a dourada ─ começou a pintar levemente a região, de modo desajeitado, borrava sempre os cantos, foi o que fez também com o outro olho. Pronto, o rosto estava todo pintado. Mas e o cabelo? Tinha o cabelo nos ombros, mas queria deixá-lo mais bonito, então prendeu algumas mechas com presilhas de prata, das irmãs; deixou-o todo dividido, certamente ficou bonito, pensou para si.
Voltou-se mais uma vez para o espelho, deu uma volta, jogou o cabelo e conferiu os quadris, sempre via as mulheres fazerem isso, não sabia para quê, mas achava que era necessário. Foi até a penteadeira e buscou alguns anéis, alguns definitivamente não entravam em seus finos dedos, um entrou no dedão, e outro minúsculo entrou no dedo médio. Este menor, tinha um par, talvez para ser usado no mesmo dedo, não se sabe. Pegou o outro e ficou comparando-os. Essas serão as alianças do meu casamento com o Dom Rafael, disse baixinho, enquanto fazia cafuné em seus próprios cabelos.
Ouviu o barulho de um abrir de porta, lá embaixo. Qualquer outra criança em sua idade teria corrido para se esconder com medo da mãe, mas permaneceu onde estava, nem se mexeu, continuou se admirando no espelho, se achando a menina mais linda do mundo. De repente a porta às sua costa se abre, e duas figuras surgem no lastro.
 ─ O que está fazendo? ─ desesperou-se a mãe.
─ Quero ser bonita ─ respondeu sorrindo.
O pai esmurrou a parede. ─ Tire já essas roupas, agora!
─ Calma, Dom Eduardo, por favor. ─ a mãe tentou acalmar o marido ─ É só uma criança!
 ─ Não, isso está muito errado, o que você quer que eu faça? Que eu aceite esse comportamento indecente?!
─ Dom Marcelo, vem aqui na mamãe, vem? ─ a arquiduquesa tentou acalmar a situação ─ Meu filho, você não pode usar as roupas da mamãe, você é um menino.
─ Sou menina! ─ respondeu com convicção.
  ─ Não, meu filho, você não é menino, você é me – ni - no...
 ─ Sou menina!  ─  insistiu
─ Não!  Isso não pode estar me acontecendo. ─ o arquiduque colocou as mãos sobre a cabeça, em desespero ─ primeiro a brincadeira com as bonecas, e agora isso? Até onde isso vai chegar?
─ Papai, eu sou menina, não é difícil de entender, a ama me explicou que…
─ VOCÊ NÃO É ME – NI - NA! PARE COM ESSAS ABERRAÇÕES!! ─ o pai esbofeteou o rosto da criança.
O menino disparou a chorar.
 ─ PARE! COMO OUSA?!  ─ A mãe correu, agarrou o garoto e o pressionou sobre seu corpo, e em defensiva berrou . ─ SAIA DAQUI, SEU BRUTO, SAIA DAQUI!
O arquiduque empurrou a arquiduquesa e levantou a mão mais uma vez ao menino travestido, bufou e afastou-se.
─ MAS...COMO OUSA?! ─  angustiou-se a arquiduquesa.
 ─ O que está acontecendo? ─ perguntaram duas vozes recém-chegadas à porta, em uníssono.
─ Ah, céus… Dom Marcelo, o que você fez?  ─ perguntou uma delas, espantada, ao olhar para o irmão trajando roupas femininas e todo pintado.
A que parecia ser a mais velha, riu, timidamente.
─ Eu já sabia.
O pai também a silenciou com uma bofetada sobre o rosto. ─ CALE-SE!
─ SEU TROGLODITA! VÁ EMBORA! ─ a mãe levantou-se rapidamente para a acudir também a filha. ─ GUARDAS! GUARDAS!
Três soldados entraram rapidamente ao quarto.
 Vossa Alteza! ─ disseram em uníssono, ao curvarem-se diante da arquiduquesa.
─ Capitão Heitor, e demais cavalheiros, ordeno-lhes a prisão do arquiduque! Por desacato à minha autoridade! ─ ordenou ela.
─ Não ousem encostar-se a mim! ─ proferiu o arquiduque.
 ─ Prendam-no agora! ─ insistiu a arquiduquesa.
─ Você não pode fazer isso! ─ choramingou ele.
 ─ Não? ─ riu desdenhosa ─ até onde sei sou a senhora dessa casa, as ordens aqui cabe a mim, senhor meu marido!
 ─ Prendam-no agora e comuniquem à Sua Majestade sobre a prisão do arquiduque.
─ Vossa Alteza! ─ os soldados curvaram-se novamente a arquiduquesa e agarram o arquiduque pelos braços.
─ Dona Rafaela, por favor, para que tanto?
─ Para que tanto? ─ desdenhou novamente a arquiduquesa ─ O que dirá mamãe ao saber que acabara de ferir a honra do Duque e da Duquesa de Campos, ao agredi-los violentamente em minha frente?
─ Por favor, minha senhora, não envolva a Rainha nesses assuntos particulares.
─ Reze para que ela não guilhotine sua cabeça na primeira hora do dia de amanhã! ─ virou as costas ao arquiduque e ordenou aos guardas que os levassem embora.

domingo, 26 de maio de 2013

Diário de Ana fulana de tal I



Viu aquela imagem magra, pálida, olheiras fundas, corpo esguio, cara de quem não dormia há séculos. Arrumou os cabelos, quando passou a mão por entre as mechas percebeu um punhado de fios soltos entre os dedos. Preocupou-se. Olhou a barriga funda, parecia estar quase sem vida, comprimiu-a e percebeu que parecia não ter mais órgãos. O que houve a mim? Será que apanhei uma moléstia? Tornou a olhar a si e olhou aos dedos dos pés, o pé tão branco e as veias saltadas sobre os músculos, causava-lhe repulsa, afastou os olhos e correu pelo quarto meio-escuro, em exceção pela luz do sol fraco que adentrava o recinto pouco convidativo. Ergueu a camisola, olhou as pernas, eram magras como há anos não tinham sido, pensou ─ seria isso que o teria afastado de mim? Não quis saber, correu a cama, sentou, buscou com os pés as sandálias de lã e tomou a calçá-las. Voltou-se ao roupeiro em busca de algo a vestir, pegou o primeiro vestido que viu a frente, pouco importava agora o qual era mais bonito e o que era mais feio, não sairia ─ por que se preocuparia com a aparência? ─, ou melhor, há tempos não se convencia em estar bela, e agora não seria esse o momento para tais brigas com o ínfimo. Agora estava sentada sobre a penteadeira e pegou-se a pentear os longos e finos cabelos, com muito cuidado, lembrou do seu estado fraco, e que se descuidasse cairia aos montes, será que o povo desejaria uma rainha careca? Indagou. Não, não desejaria. Embora soubesse que a tal altura, eles desejariam, certamente, que uma mulher não tivesse jamais se sentado ao trono.
Pouco se dava ao que o povo dizia de sua política, recordava que o que mais tinha feio nos últimos meses foi dedicar sua vida integral ao que desejavam, e o que tinha ganhado com tudo aquilo? Nada. Apenas ingratidões e pouco valorizava sua dedicação e fingiam gostá-la, mas no fundo sabia que seus falsos júbilos eram tão repugnantes como as mais graves das chagas. E nesse momento não queria preocupações, apenas queria estar apta a raciocinar com razão e deixar de lado qualquer interferência que pudesse lhe arrancar do mundo e fazer-la distante por alguns segundos.
Sabia que tinha obrigações, e que estas não poderiam ser substituídas por pensamentos fracos que lhe vinham à cabeça e voltavam ao raio que os tinha trazido, com a mesma força. Precisava estar forte diante do velho padre, para dizer o que tinha vontade e jamais poderia pensar em hesitar e tampouco ser contraditória em suas palavras, porque qualquer passo mal dado lhe fadaria o infortúnio de voltar ao mesmo estágio de onde saiu ─ fraca e impotente ─ e já não desejava estar mais ali, queria estar distante de toda aquela realidade que a consumia e que a nada trazia. Voltou ao espelho de onde tinha emergido agora pouco. Sentiu-se fraca. Mas ergueu-se, agarrando a forças que não sabia de onde brotava. Bateram a porta.
 ─ Entre! ─ Ordenou.
─ Majestade ─ a figura de cabelos bagunçados e trajando trapos, adentrara a pouco e se curvou diante da rainha. ─ Devo ordenar que seja servido seu desjejum?
─ Não sei tenho vontade de deixar a clausura desse infeliz quarto ─ disse cerrando os punhos e caminhando sobre o nada, pelo piso do quarto. ─ Onde está ele?
A escrava abaixou a cabeça e ficou desajeitada.
─ Anda, lhe fiz uma pergunta! ─ irritou-se ─ Ou será que terei eu mesma que lhe arrancar as respostas junto com sua língua?
─ Está lá em baixo, senhora, dormiu no quarto de um de suas aias de companhia.       
─ Desgraçado!
─ Descul…
─ Suma da minha frente e leve junto com você o seu desjejum para o mais profundo dos infernos!
─ Majestade. ─ a escrava curvou-se mais uma vez e deixou o quarto a passos ligeiros.
                 
Ana de …, mais uma vez sentia o pesar de estar a frente de um reino falido e que lhe trazia tantas dores de cabeça tal como o seu casamento agourento com o Duque de Carvalho. Inclinou-se sobre a cama e tornou a chora e esbofetear os travesseiros. Sentia-se mal assim como tinha se sentido durante todo o verão passado, e sabia como poderia se sentir de tal maneira, pensava ser sempre uma mulher de tanta garra e que encarava a pior das situações sempre com pés no chão. Não sabia ao certo quando e como ali tinha chegado, sabia que o fundo do poço lhe convidava; ou era essa a sensação que lhe vinha a mente de quando em quando. Desde abrir os olhos no começo do dia até o fechar dos mesmos, no final deste. Sabia que durante muitos meses as coisas lhe fugiram de um total controle, por mais que tentasse manter o ritmo da realidade, sempre permanecia na inércia de uma abstração que lhe descia a garganta de maneira tão cruel e dolorosa.
Quando o pai ainda lhe era presente, pensou que todo o ofício de governar um povo lhe tinha sido passado, mero engano. Ao sentar ao trono de pedra, percebia que quanto mais achava estar por cima das ordens, eram estas que lhe acorrentava as mãos de maneira rápida e certeira, sem pena, e ligeira. Sabia que para início de conversa, ser mulher e ser político eram tarefas distantes à época, dizia a grande maioria; por mais que nos últimos anos tentava não se convencer dessa afirmação insolente . Seu fraco coração parecia se convencer fielmente de tal afirmativa. Tentou de todo modo se mostrar diferente dessa aparência que lhe caiu nos últimos meses, mas era difícil, e ora como era. Embora quisesse ver a diferença frente aos seus olhos, ela não estava ali quando precisava.