domingo, 26 de maio de 2013

Diário de Ana fulana de tal I



Viu aquela imagem magra, pálida, olheiras fundas, corpo esguio, cara de quem não dormia há séculos. Arrumou os cabelos, quando passou a mão por entre as mechas percebeu um punhado de fios soltos entre os dedos. Preocupou-se. Olhou a barriga funda, parecia estar quase sem vida, comprimiu-a e percebeu que parecia não ter mais órgãos. O que houve a mim? Será que apanhei uma moléstia? Tornou a olhar a si e olhou aos dedos dos pés, o pé tão branco e as veias saltadas sobre os músculos, causava-lhe repulsa, afastou os olhos e correu pelo quarto meio-escuro, em exceção pela luz do sol fraco que adentrava o recinto pouco convidativo. Ergueu a camisola, olhou as pernas, eram magras como há anos não tinham sido, pensou ─ seria isso que o teria afastado de mim? Não quis saber, correu a cama, sentou, buscou com os pés as sandálias de lã e tomou a calçá-las. Voltou-se ao roupeiro em busca de algo a vestir, pegou o primeiro vestido que viu a frente, pouco importava agora o qual era mais bonito e o que era mais feio, não sairia ─ por que se preocuparia com a aparência? ─, ou melhor, há tempos não se convencia em estar bela, e agora não seria esse o momento para tais brigas com o ínfimo. Agora estava sentada sobre a penteadeira e pegou-se a pentear os longos e finos cabelos, com muito cuidado, lembrou do seu estado fraco, e que se descuidasse cairia aos montes, será que o povo desejaria uma rainha careca? Indagou. Não, não desejaria. Embora soubesse que a tal altura, eles desejariam, certamente, que uma mulher não tivesse jamais se sentado ao trono.
Pouco se dava ao que o povo dizia de sua política, recordava que o que mais tinha feio nos últimos meses foi dedicar sua vida integral ao que desejavam, e o que tinha ganhado com tudo aquilo? Nada. Apenas ingratidões e pouco valorizava sua dedicação e fingiam gostá-la, mas no fundo sabia que seus falsos júbilos eram tão repugnantes como as mais graves das chagas. E nesse momento não queria preocupações, apenas queria estar apta a raciocinar com razão e deixar de lado qualquer interferência que pudesse lhe arrancar do mundo e fazer-la distante por alguns segundos.
Sabia que tinha obrigações, e que estas não poderiam ser substituídas por pensamentos fracos que lhe vinham à cabeça e voltavam ao raio que os tinha trazido, com a mesma força. Precisava estar forte diante do velho padre, para dizer o que tinha vontade e jamais poderia pensar em hesitar e tampouco ser contraditória em suas palavras, porque qualquer passo mal dado lhe fadaria o infortúnio de voltar ao mesmo estágio de onde saiu ─ fraca e impotente ─ e já não desejava estar mais ali, queria estar distante de toda aquela realidade que a consumia e que a nada trazia. Voltou ao espelho de onde tinha emergido agora pouco. Sentiu-se fraca. Mas ergueu-se, agarrando a forças que não sabia de onde brotava. Bateram a porta.
 ─ Entre! ─ Ordenou.
─ Majestade ─ a figura de cabelos bagunçados e trajando trapos, adentrara a pouco e se curvou diante da rainha. ─ Devo ordenar que seja servido seu desjejum?
─ Não sei tenho vontade de deixar a clausura desse infeliz quarto ─ disse cerrando os punhos e caminhando sobre o nada, pelo piso do quarto. ─ Onde está ele?
A escrava abaixou a cabeça e ficou desajeitada.
─ Anda, lhe fiz uma pergunta! ─ irritou-se ─ Ou será que terei eu mesma que lhe arrancar as respostas junto com sua língua?
─ Está lá em baixo, senhora, dormiu no quarto de um de suas aias de companhia.       
─ Desgraçado!
─ Descul…
─ Suma da minha frente e leve junto com você o seu desjejum para o mais profundo dos infernos!
─ Majestade. ─ a escrava curvou-se mais uma vez e deixou o quarto a passos ligeiros.
                 
Ana de …, mais uma vez sentia o pesar de estar a frente de um reino falido e que lhe trazia tantas dores de cabeça tal como o seu casamento agourento com o Duque de Carvalho. Inclinou-se sobre a cama e tornou a chora e esbofetear os travesseiros. Sentia-se mal assim como tinha se sentido durante todo o verão passado, e sabia como poderia se sentir de tal maneira, pensava ser sempre uma mulher de tanta garra e que encarava a pior das situações sempre com pés no chão. Não sabia ao certo quando e como ali tinha chegado, sabia que o fundo do poço lhe convidava; ou era essa a sensação que lhe vinha a mente de quando em quando. Desde abrir os olhos no começo do dia até o fechar dos mesmos, no final deste. Sabia que durante muitos meses as coisas lhe fugiram de um total controle, por mais que tentasse manter o ritmo da realidade, sempre permanecia na inércia de uma abstração que lhe descia a garganta de maneira tão cruel e dolorosa.
Quando o pai ainda lhe era presente, pensou que todo o ofício de governar um povo lhe tinha sido passado, mero engano. Ao sentar ao trono de pedra, percebia que quanto mais achava estar por cima das ordens, eram estas que lhe acorrentava as mãos de maneira rápida e certeira, sem pena, e ligeira. Sabia que para início de conversa, ser mulher e ser político eram tarefas distantes à época, dizia a grande maioria; por mais que nos últimos anos tentava não se convencer dessa afirmação insolente . Seu fraco coração parecia se convencer fielmente de tal afirmativa. Tentou de todo modo se mostrar diferente dessa aparência que lhe caiu nos últimos meses, mas era difícil, e ora como era. Embora quisesse ver a diferença frente aos seus olhos, ela não estava ali quando precisava.
       

       


Instinto de lobo


                                        I

Sobre a tribo Baruá caia o mais duro dos regimes civilizacionais. Criados eram os guerreiros, entre duros treinamentos e pouco tempo vago, para que não tivessem tempo ao menos de respirar direito e tampouco se sujeitassem a pensamentos que estivessem à margem de suas vidas árduas. O capitão gritava em bom tom, diariamente, que os guerreiros Baruá eram homens apenas por terem nascido presos a um corpo humano, mas que o seu instinto e alma eram tal como o do lobo-guará, a quem deveriam seguir e espelhassem enquanto soprassem vida. Existir enquanto guerreiro tribal era uma virtude, certamente havia suas dificuldades, mas estas deviam ser descartadas enquanto era tempo. A maioria dos homens ali presentes fora submetidos ao calor da batalha desde tenra idade, ainda em vestes joviais, ouvia aos seus patras dizer que homem Baruá é homem guerreiro, ser do exército é honra, o contrário é fracasso de vida. Desta forma, homens ali nascidos poucas escolhas tinham. Tens braços fortes e aptidão a segurar uma lança? É para o exército a que nasceu, meu filho! Ouviam.  O Capitão seguro de si, autoritário, e de pouca prosa, antes das baterias de exercícios, recitava religiosamente aos rapazes o aun, o guia do guerreiro, mais tarde chamado de manual de sobrevivência e conduta de guerra. E para quê? Dizia ele que guerreiros bem formados são os que grafam em sua mente os mandos de sua tribo e em nenhum instante pensa em desordens disciplinares. Seguida a ladainha diária prenunciada, os guerreiros voltavam-se às lições de exercício físico ao solo barrento, tão vermelho e duro como madeira que se forja armas.

Maélia, a velha xamã tribal, filha da jaguatirica, mirava ao fundo, na mata seca que ficava próximo ao campo de treinamento. Pensava consigo mesma, quem é o Capitão para falar aos homens? Nem conhecedor dos mistérios masculinos é. Com que valia transmite aos homens valores morais se nem ao mesmo conhece o seu mais íntimo? Pensava e irritava-se. Preferia não aproximar e nem dialogar com o Capitão, sentia que a troca de informação com o mísero ser não era empática e lhe custaria tempo, e que em tais circunstâncias tempo era ouro. Voltou-se a estrada acidentada que conduzia às moicas¹, ergueu os velhos trapos deslizados sobre as pernas a que chamava manto, e sumiu sem deixar rastro.

Os guerreiros permaneceram em seus exercícios esgotantes no chão, enquanto o Capelão passeava desdenhoso entre eles. Quando lhe vinha a vontade, chutava um ou outro, exigindo-lhe eficiência e rapidez na execução de sua sequência. Esgotados, os guerreiros estavam ali desde o primeiro clarão do sol, e nem estavam perto de serem dispensados; eram liberados de quando em quando, apenas para lubrificar a garganta com a água do rio sujo abaixo da costeira. Após os exercícios físicos, seguiam ainda para a lição de armas. E assim fadariam até o meio do dia, sem previsão de término.

Distribuídos deitados ao solo, alinhavam-se em escala, eram aproximadamente cinquenta fileiras indianas com trinta ocupantes em cada uma delas. Na penúltima fileira, na posição quarta, estava Farbo, um modesto guerreiro, corpo esguio e um porte abaixo da média exigida pelo exército Baruá. Nos últimos anos a tribo tivera muitos nascidos do sexo feminino e poucos meninos, e por agouro eram poucos os destinados ao exército. O rapaz foi um destes, entrou no exército sem ter o porte exigido e não tinha o que chamavam ória² , a glória nata do guerreiro. Estava ali há dois verões e não sabia ainda quanto tempo duraria. Tinha receio que fosse expulso e envergonhasse sua família, tinha certeza que não nascera para a defesa da tribo, mas pesava sobre seus calcanhares o medo de um aborto militar e a falta de prestígio que cairia sobre seu bando.

─ Água! Água! ─ Entoou o Capitão ─ Andem, vão e bebam o que puder, não terão pausa mais tarde. ─ Os guerreiros quase que ritmicamente levantaram e rumaram para a costeira, em busca do único alimento disponível durante o rito de treinamento. Em pouco tempo, as margens do rio avermelhado estava coberta por corpos suados e sedentos. Farbo, não desceu de primeira, esperaria uma parte dos companheiros retornarem para que depois descesse em busca de sua parte suja de água. Longe dos olhos do Capitão, evitava o contato com o restante dos companheiros, porque muitos deles lhe resultavam em agravos ─ no rio ─ lhe afogavam a cabeça ou lhe atiravam barro, fingindo serem excrementos. ─ Não vai descer? ─ Indagou uma voz às suas costas. Virou-se e encontrou os olhos de seu companheiro mais próximo, Arun. ─ Envergonhado, balançou a cabeça, em rejeição. ─ Daqui a pouco desço. ─ Tentou disfarçar o rapaz. ─ Desça comigo, não deixarei eles te tocarem.  ─ Rejeitou mais uma vez e dessa vez nem o olhou. Arun apenas consentiu com a cabeça, virou as costas e desceu.

O treinamento seguiu até início do meio dia. O Capitão entoou mais uma vez o toque de recolher e ordenou aos guerreiros que retornassem às suas moicas, o treinamento estava encerrado. Amanhã haveria mais, por hoje era só. Os guerreiros rumaram pela mesma estrada que há anos traçavam uma rua larga, pouco espaçada, e inteiramente cascalhada. Entre eles, no fim do grupo, Farbo ia a passos lentos, cabisbaixo como de costume. Arun, que ia a frente, cerrou os passos, deixando ser passado pelos demais. Esperou por Farbo, que não fazia questão de encontrá-lo, não hoje. ─ Espere! ─ Ordenou quando o jovem passou ligeiro, fingindo não notá-lo. Quando Farbo parou e mirou-o, solicito-o acanhadamente companhia. Por sua vez, o jovem disse-lhe achar que seria uma má ideia, e tornou a esquivar, ainda de cabeça baixa, tentando driblá-lo. Arun ultrajado quis saber por que o maltrato. ─ Não somos irmãos de guerra, homem-lobo? Farbo timidamente riu-se, confirmou com a cabeça, ─ é o que dizem.

Seguiram sozinhos atrás do bando. Farbo evitava olhá-lo, quando Arun desviava o olhar com um achado qualquer no meio do caminho, ligeiramente o jovem corria-lhe os olhos disfarçadamente. Arun apercebendo-se do desconforto do jovem em falhar-lhe, tentou arrancá-lo palavras. Quis saber da matra, da velha matriarca de Farbo, uma senhora vivida e que cantava sabedoria em cada fio de cabelo-branco nascido. ─ Não tem me oferecido mais da bebedura da matra³,o que houve? ─ Brincou ─ Ela adoentou-se e não tive conhecimento? Farbo desfez a suspeita rapidamente. ─ A matra está boa, só é velha e cansada. ─ Arun disse-lhe admirar a garra da nobre senhora, mesmo envolta em senilidade, ainda se mostrava preciosa e ativa nos ritos da tribo. Farbo confirmou acenando levemente a fronte. Explicou-lhe que a matra já não faz mais a bebedura e tal ofício matrilinear passou a sua mana, que em breve vestiria as vestes da matriarca. Atento o guerreiro o ouviu e, estrategicamente, ofereceu-se a visitar a sua matra. Farbo, pego de surpresa, e sem escudos a lhe sustentar, apenas consentiu transpirando pouca satisfação. Arun firmou a mão no ombro de seu companheiro-irmão e despediu-se.
Quando adentrou à sua moica, Jainé, a mana, estava na fonte lavando pontes. Virou-se brevemente.
─ Água?
─ Sim. ─ Aceitou Farbo ─ Que nada bebera durante o treino. Bebeu tanto que sentiu o estômago inflar.
─ A matra?
─ Deitada.
─ Doente?
─ Não ─ Acalmou-o Jainé ─ Cansada, é a idade.
─ Farás bebedura para a ceia?
─ Não temos ervas, acabou-se anteontem.
─ Maluá ─ disse ─ Pedirei a Maluá, ela deve ter, é certeza.
─ Não pedirás, nessa moica não se faz empréstimos, a matra não aprecia dívidas.
─ Maluá é quase irmã, não se incomodará.
─ A mim incomoda.
─ Oh, mana, é para Arun.
─ Arun? ─ Interessou-se ─ Arun virá?
─ Sim, ceiará conosco, mais tarde, no meio da noite. ─ Explicou ─ Preciso das ervas, Arun aprecia a bebedura da matra.
─ Pois vá e não se demore. ─ Disse ela ─ Punharei a ceia ao fogo.
Farbo a olhou e sorriu-lhe.
─ Ora, vá, manu!
Quando o jovem guerreiro saiu, Jainé riu a si mesma. Ela apreciava o grandalhão Arun, admirava-lhe seu jeito possante.
Ao meio da noite, Jainé tinha dado conta da ceia e já dispusera sobre a mesa a que faziam as refeições. Estava no espaço destinado a sua dormida, de frete a sua rede, sentada sobre um toco minúsculo, pintava-se com a pasta do urucum. Queria estar bonita, pensava ela. Ajeitara o cabelo, punha o colar de dentes de marfim, envolvera o corpo na pele clara da jaguatirica. Farbo entrara no recinto e admiro-a.
─ Ora, mana, a pele da jaguatirica não é para os ritos?
─ Tenho de usá-la, manu, sabe de meus votos.
Farbo riu e deixou-a. Adiantou-se a entrada da moica, cadê Arun, que se demora? Passeava de um canto a outro, impaciente. Mirou ao centro da moica e lá estava a matra, sentada à mesa e bem alinhada, trajando as vestes da matriarca, a que em poucos dias seria destinada a Jainé. Jocoso aproximou-se da velha, a quem tinha afago único. Beijou-lhe a face.
─ A matra sente-se bem?
─ Sim, nasçú, a matra está boa e forte ainda. ─ Acalentou-lhe os cabelos escuros e oleosos. ─ E você guerreiro-lobo? Cadê a ventura? ─ A matra está velha e passa mais tempo deitada, mas a tudo vê.
─ Oh, matra, Farbo é só júbilos.
─ A matra vê até as palavras que não descem sobre seus lábios, nasçú. ─ Não está satisfeito com os deveres militares, não é?
─ Estou matra, Farbo gosta de servir ao exército.
─ Não, não gosta. Farbo é homem compassivo, não é de lutas que se engrandeci.  ─ Nasceu para os ritos, nasçú, esse é o seu agoan.
─ Não é …
─ Psiu! ─ Pôs as mãos nos lábios do jovem ─ Patra, foi patra quem convenceu nasçú ao exército. ─ Matra dará jeito, já tem falado com Grã-Soã.
Farbo tentou mais uma vez falar e a matra o silenciou.
─ Farbo irá servir aos ritos masculinos, o jovem nascera aberto e se formará sacerdote. ─ Farbo não nascera para usar a força, nascera para usar a intuição.
─ Matra …
O silêncio antes formado fora interrompido pelo visitante chegado a entrada da moica. Arun deu um passo a frente e reverenciou a matriarca, fazendo-lhe reverência ainda à porta. Mirou Farbo e deu um sorriso de comprimento.
─ Adentre jovem-lobo. ─ Convidou a matra. ─ Essa moica o recebe.
Arun entrou timidamente e caminhou até a mesa, donde estava a sua espera o jovem Farbo e a matriarca familiar. Moian, a matra, beijou-lhe a face e lhe indicou um dos tocos ao redor da mesa. Antes de sentar-se, Arun apertou o antebraço de Farbo saudando-o, como deve ser o cumprimento entre os lobos-guerreiros.
─ É aprazível está em sua companhia matra, e de seu bando.
─ O afeto é maior de minha parte, Arun. ─ Assentiu a matra ─ Ande, sente, Jainé não se demorará a servir a ceia.
Não demorou e Jainé adentrou ao recinto, bem acentuada e apresentável em seus trajes de sacerdotiza-Soã.
─ Seja bem-vindo a esta moica, jovem-lobo! ─ Saudou-o.
─ Agradecido de sua intenção, senhora ─ Adiantou-se e levantou a receber a bênção da sacerdotisa  ─ A sua bênção, senhora. ─ Curvou-se perante a moça.
Jainé tocou-lhe os ombros e desenhou em sua testa o caran, três vezes seguidas.
─ Seja guiado pelos Antigos, guerreiro-lobo! ─ Finalizou.
Sentados à mesa, Jainé serviu-lhes sopa de carne seca com ervas silvestres e grãos miúdos. Acompanhando o prato principal, deu-lhes a beber a bebedura concentrada e amarga de ervas, distribuindo-a em potes menores. Para os aperitivos de companhia, foram cozidos legumes da terra, cabeças-de-raíz, como chamavam. Antes de provarem a refeição, Jainé convidou-os ao agradecimento a Mãe-Terra pelo alimento concedido naquela noite. No primeiro momento a ceia seguiu em silêncio, como era costume naquela moica, trocavam olhares velados e centraram-se em seus pratos.
─ À Cy, o meu alimento compartilho! ─ Exclamou Jainé e derramou parte da bebedura sobre o chão.
─ À Cy, o alimento compartilhamos! ─ Exclamou primeiro a matra e em seguida os dois jovens.
                   Repentinamente, matra deitou a falar do exército tribal, encarando Arun. Quis saber quais valores o jovem já tinha aprendido e o que carregaria para a vida após a fase de treinamento e se pretendida seguir carreira. Arun, timidamente, respondeu que gostava do exército e que acreditava ser ali o seu futuro, gostava do manejo com as armas e a disciplina que lhe ofereciam.
─ É um trabalho duro, jovem. ─ Disse ela.
─ Sim, é. ─ Concordou.
Continuou a matra a falar de suas pretensões para vida do jovem Farbo, em torná-lo sacerdote e fazê-lo xamã. Arun pareceu surpreso com tal notícia, sabia que o rapaz era desajeitado para o ofício militar, mas não imaginava que estava por vir um possível aborto de carreira.
─ Quando pretende solicitar dispensa? ─ Quis saber Arun, olhando a Farbo.
Farbo apenas balançou a cabeça em resposta. Ele tampouco sabia dos planos da matriarca, a ele era tão novidade como a qualquer outro.
Ao fim da ceia, Arun agradeceu a Jainé o banquete e a matra a hospitalidade. Despediu-se da família e encaminhou-se a porta, parou, e voltou-se a eles novamente.
─ Não me acompanhas até a estrada? ─ Mirou Farbo.
Farbo olhou a matra, que consentiu com um gesto sua ausência.
Os dois jovens saíram a passos lentos, passeando entre as moicas vizinhas. Estavam ao leste, a moica de Arun ficava ao sul. Ainda caminhando passaram por um jamboeiro, donde Arun convidou Farbo a sentar-se sobre os troncos abaixo da árvore. Disse-lhe que queria conversar, não tinha sono naquela noite. Farbo, acanhado, aceitou e sentou-se primeiro.
─ Então Farbo desistirá dos deveres militares? passou a mão levemente sobre seu rosto. ─ E quando pretendias me contar?
─ Mas eu nem sabia, embora Arun sabe que não levo jeito... nem o que fazer.
─ Daremos jeito, encontraremos outro ofício à você, se fará sacerdote, como sugeriu a matra.
─ Não sei se tenho vontade, sou tão desajeitado, não tenho dons, estou tão perdido...
Arun, silenciou pondo os dedos sobre seus lábios.
Farbo estranhou e encarou em silêncio, com olhos baixos.
─ Se estás tão perdido, deixe-me ajuda-lo a encontrar-se... ─ o robusto guerreiro, desajeitado, aproximou-se mais de Farbo, trêmulo e um movimento grosseiro, encostou os seus lábios aos dele.

                         

sábado, 25 de maio de 2013

Tirados

      ─ Deite-se sobre a esteira, jovem. ─ orientou a velha de olhar baixo e cabelos desgrenhados, enquanto atirava ervas sobre a panela de barro ao fogo, a mistura fervia tanto, ao passo que o quarto enchia-se de fumaça cinzenta, quase tóxica e que fazia mal aos olhos. Jane sentiu o estômago embrulhar só de respirar o cheiro agre da bebedura, pontadas internas vinham-lhe à barriga ao ouvir o som de cada bolha levantada da água em ebulição. Deitou o rosto de lado sobre a esteira, tentou fechar-se ao mundo, enquanto lhe era feito o processo de ‘tiragem’, não queria se sentir culpada pelo ato. Nos últimos dias apenas consolou-se em saber que aquilo lhe deixaria livre de responsabilidades, no entanto, não tinha certeza se sentiria culpada ou teria arrependimento quando tudo, por fim, terminasse.
Perguntou.
─ Ele sentirá?
─ É o quê, menina?
A garota apontou para a barriga.
─ Não, ainda nem é gente. ─ respondeu a velha, balançando a cabeça.
─ E eu?
─ Agora é tarde para perguntas. ─ Adiantou à moça um copo de barro suado, cheio de chá escuro. ─ Agora beba, sentirá um amargo, não pare, beba tudo.
A jovem fechou os olhos e apenas engoliu a bebida escura. Um misto de amargo e salgado desceu-lhe a garganta, a temperatura elevada da bebida ao tocar sua boca lhe fez tossir duas ou três vezes. Após ingerir tudo, encolheu-se sobre a esteira e lágrimas banharam seu rosto. Sentiu-se ruim e sua cabeça dava voltas, deitou e fechou os olhos. Morta, pensou.  Ao mexer os dedos dos pés, concluiu que não. Imaginou como seria a vida de mãe, apalpou a barriga. O que tinha feito? Embora não tivesse certa consciência, sabia que o que acabara de fazer lhe custaria dias, ou talvez meses de sono. Voltou-se à velha, que calmamente arrumava seus vidros de ervas sobre as prateleiras acima do fogão-de-lenha. Parecia tão tranquila com toda aquela situação, que não demonstrava resignação alguma. Talvez estivesse tão acostumada com as práticas de ‘tiragem’ que já tivesse pegado gosto pelo ofício.
─ Como me sentirei? ─ quis saber a moça.
─ Como quem se livrou de um fardo ─ respondeu sem cerimônias ─ Olhe pra você, uma jovem que nem seios ainda têm para dar leite. O que teria feito se tivesse o infeliz? Pediria esmolas para dar-lhe de comer?
A jovem encolheu-se sobre a esteira. Sentia-se suja em saber que a velha desenhou a verdade diante dos seus olhos, que trouxe sua cabeça de volta a superfície da realidade.
─ Vá e deixe o combinado sobre a mesma. E já sabe. Você nunca me viu e jamais entrou nessa casa. Em sete dias, no máximo, ele descerá, e terá o seu resultado.
Jane levantou-se e sentia ardências no estômago. Afastou a blusa um pouco de perto do seio, e apanhou um saco de moedas, tão amassado e sujo quanto sua dignidade estava agora. Fez como ordenara a velha, deixou sobre a mesa e saiu em passos apressados e jamais ousou olhar para trás.  Caminhou por algumas horas junto de sua trouxa de roupa, sem saber onde iria passar a noite dessa vez. Ignorou qualquer pensamento, apenas caminhou e caminhou. Ao longe ouviu o barulho frenético de rodas riscando a estrada. Ignorou.  E nem olhou para trás, mais uma vez. Deve ser só mais algum miserável bêbado arriscando a vida, concluiu. O barulho aumentou e chegava-lhe com maior frequência aos ouvidos. Dessa vez decidiu por olhar o que estava acontecendo. Antes que seus olhos encontrassem o motivo da bagunça, o miserável bêbado já estava em cima de seu corpo em falência; com sua carruagem forjada em ferro maciço, amassou-lhe o tronco por completo. A última imagem que viu foi dos raios solares que lhe queimava o rosto moribundo, enquanto pessoas descidas da carruagem se aglomeravam ao seu redor para ver a desgraça recém-armada.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Extraviado

                        Vestindo em cores, sangue outrora derramado, perdidos sentimentos arrancados em vida. Seus axiomas? Nunca os usou, relações trançadas em quadros egóicos, que jamais virão à tona. Valimentos arraigados em valer-se sempre em estados alternados de embriagada consciência, para o transbordo de opoentes, que um dia em altar estiveram.
Suas transgressões nunca pararão, ao solo encovo-os, para o eterno retorno prestigiar. Atos um dia ficarão, não sentirá mais o que ao passado deixou, todos iludirá. O todo iludirá. Não temerá mais o canto do azulado, que aos montes, sucumbirá. Vidas tolas, dirá.
Escuros aos olhos, enegrecidos ritmos, que não movem aos que deixou. Ronco do semblante, envelhecido pela espera do ruir, já foi e não voltou. É agora, e não mais será.
Braços curvados, uma vez, mais uma vez, erguerá o que derrubara. Não devolvido o que extraviado fora. Não devolverá. Dado não seria o perdido resgatado já ganho. Traído ao céu, perdido e embrulhado devolvido ao mar.
Prazos curtos, notórios, ignorados ao social.  Já será agora enxergado? Não, não será. Não mais.


sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Bardo

“O bardo contou:
─ Em um reino, onde regras são apenas regras, não tem valor na prática, as coisas correm sem freio e não há pedágios para os que chegam em mulas e voltam para casa a cavalo. Contam que os Clãs do Tabaco, e seus respectivos líderes, perdem força a cada dia e não conseguem permanecer fortes e sua hegemonia econômica e ideológica. Seu produto perde prestígio, e seus usários são feitos menores, resumidos a seres atrasados, reacionários e que irão morrer em breve.
─ E para quem perdem força? ─ Quis saber o andarilho.
─ Oras, para quem! ─ Foi ríspido o bardo ─ Para àquele que está acima do rei, que governa sem regras, que não tem direito hereditário algum, e nem advém de nenhuma Casa Real.
─ Como governa, se não tem direito hereditário? ─ Nesse reino, rapaz dos passos ligeiros, quem governa é quem tem mais moedas de ouro!
─ E de quem fala, velho bardo? ─ Inquietou-se o andarilho.
─ De quem mais seria, se não o Imperador do Reino Alcóolico? Quem mais teria liberdade de ir e vir em nossas cortes, sem qualquer restrição? Que vangloria seu produto e o alça em um patamar superior. Que ilude e faz acreditar, que aqueles que o consomem são melhores, mais modernos, são libertos. E em caso, diminuiu o valor ideológico do produto fornecido pelos Clãs do Tabaco.
─ E os líderes dos Clãs do Tabaco? Por que não reagem?
─ E que poderes teriam para digladiar com o Imperador do Reino Alcóolico? Idelógico? Econômico? ─ Desdenhou o bardo ─ De quem vos falo, jovem, é mais forte em regalias que o próprio Rei!”


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Feito

Principio? O que esteve antes jamais voltará à ordem. Pelo piso resvaladiço despencou em encontro ao infortúnio fulcral de seu ser. Soltas estarão células-partes que jamais se alinharão. Donde urgi ordens de donzelas líderes que faz ciclo girar, girar o inconsciente, girar em si, girar o todo, girar o mundo, girar-vida.  Labaredas cinza dançam o ar, olor-feitiço estarão a lançar, uma vez iniciado jamais terminará. Guirlandas flóridas ao topo da mente que tudo ver, o sangue matriz faz em tudo crer. Nos jardins-espaços veste-se em mundos ruídos a anciã que tece o que virá. Sabe o destino? A lã que o costura é ela que a tem. A leva de castas banham-se no rio de juras, ao próximo verão carregarão a promessa-criança.
 Rasgos em céu, tudo voga o clamor Dela. Os cifres sonoros já entoam o rito que no prelúnio se iniciará. Todos se curvam, a Anciã trouxe a lua, odes rugem fortes, êxtase toma corpos, suor, prazer, satisfação, malícia. Está feito. O que o foi forjado não se rompe. Pelo três vezes três, foi feito e assim será.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Giramundo


Difícil convivência estar no desiquilíbrio das emoções frágeis sustentadas em caules mal-resolvidos. Dentro dos freios que limitam o homem a decidir entre o que o lhe domina em coragem ou falta-lhe em verdade, sob o que pouco diz acerca de absolutas incertezas do ser. “Giramundo” em torno das "incircuntâncias" lineares que forja o viver prazeroso banhado no mais delicado óleo de sentimentos perdidos. Os ossos que uma vez...outrora, enterrados foram deixados, serão revelados em incuguências dilacerantes...destoantes. “─ Sabe o âmago? Foi-se, de tão perdido em si mesmo, foi-se!” Há inverdades em pensar sobre si, e estas os olhos alheios não pode mirar, o que há de ínfimo não se toca, apenas se sente em sintonia. Solidificar nas entranhas desapercebidas das indiferenças sociais, negadas aos fracos, pulsos que já não captam o que pode sentir. Do mesmo caso daqueles que beijam em face, mas não a têm. Entoantes descasos, soltos, parado no vago, perdido vagará em degraus soltos, desprendidos de absoluta incerteza. E não é o que irá romper os ramos que já se forma e agora se desfaz. As vigas das paredes-muros "insujeitas" que já não há de sustentar mais, prenome e sem-nome.